• Carol Ussier

Vale a pena visitar o Bahrein?


Bahrein nunca esteve entre os países que eu mais queria conhecer. Aliás, assumo que até pouco tempo eu nem sabia que existia um país chamado Bahrein. Caso você também não saiba, é um país no Oriente Médio que é menor que o município de São Paulo e tem aproximadamente 1,5 milhões de habitantes. A história de como fui parar lá é bem simples: uma amiga minha estava morando por lá temporariamente e eu estava em Gana, que não é tão longe de Bahrein quanto o Brasil. Juntou a vontade de estar mais próxima a amigos durante este ano com a possibilidade - talvez única - de conhecer um país "exótico" de maneira relativamente simples e a mágica estava feita. Comprei minhas passagens aéreas com pouco mais de 2 meses de antecedência e sem saber absolutamente nada sobre o país embarquei para mais uma viagem que apesar de curta seria uma experiência transformadora.


Quando eu digo que eu não sabia nada sobre o Bahrein, eu realmente quero dizer nada. Desembarquei no aeroporto apenas com uma foto com o endereço da minha amiga. Capital do país? Eu não sabia. Que moeda eu ia usar? Não sabia, levei Euros para trocar. É Oriente Médio, será que falam árabe? Era difícil até fazer suposições, o que na verdade talvez seria melhor não fazermos.

Muita gente me perguntou se tem algo para fazer por lá. Também ouvi alguns comentários do tipo "mas vale a pena?". E apesar de ter sim "coisas para fazer" em Bahrein - leia-se pontos turísticos - . eu vou escrever sobre isso em um outro artigo. Hoje eu quero falar justamente sobre porque isso não importa para mim. Sobre por que toda e qualquer experiência vale a pena e é transformadora para mim. E também sobre o conceito de destino "exótico".

Eu já escrevi antes sobre os julgamentos e preconceitos que temos sobre a África e também falei a verdade sobre Gana. Se você leu esses textos talvez tenha percebido uma tendência: eu gosto muito de explorar o inexplorado. Gosto do desconhecido, gosto de frio na barriga e gosto de quebrar paradigmas, começando pelos meus próprios. Eu acredito que é preciso ver com os próprios olhos para construir opiniões e que há muito mais por trás das informações que recebemos. Foi por isso que eu decidi que tinha que morar na África e parar de generalizar o continente e também por isso que eu quis visitar um país no Oriente Médio.

Bahrein foi o primeiro país que visitei no Oriente Médio e meus 4 dias por lá foram suficientes para ter certeza que quero voltar para a região assim que possível. Mesmo eu não tendo nenhuma informação antes, foi só eu desembarcar no país e imediatamente vários preconceitos e paradigmas se instalaram: "parece perigoso", "coitadas dessas mulheres que são obrigadas a se cobrirem com a burca", "acho que não vou andar sozinha", e por aí vai. A população é majoritariamente islâmica e acho que não preciso dizer por aqui o que isso significa, certo?

Todos os dias recebemos informações sobre terrorismo, sobre o estado islâmico, sobre boko haram. Abrimos a internet e vemos um monte de fotos de árabes com suas túnicas e suas armas. Discutimos questões feministas e ficamos indignadas que milhares de mulheres no mundo não possam ter liberdade para escolher o que vestir. Chegam os jogos olímpicos e construímos várias teorias sobre o quão ruim é ser uma atleta e precisar usar hijab. Enfim, todo dia, o tempo todo alguém tem uma opinião pronta a ser compartilhada sobre o islamismo.


Apesar de eu já ter visitado outro país majoritariamente islâmico e de 30% da população em Gana - onde moro - ser islâmica, meus poucos dias no Bahrein foram cheios de quebra de paradigmas e estereótipos. A diferença? Quando eu estive em Marrocos eu acho que eu era um pouco nova ainda e ainda não tinha visão crítica. Em Gana, como eu moro aqui, acabo entrando em um modo meio automático e menos presente, além do fato de eu morar na capital, que é uma cidade mais cosmopolita. Por outro lado, no Bahrein eu estava em uma condição temporária e muito mais aberta. Já faz algum tempo que a minha forma de viajar mudou. Ou melhor, acho que o que mudou foi a intenção das viagens.

Eu adoro conhecer pontos turísticos, visitar museus e monumentos e ver paisagens de cartão postal. Quem não gosta, não é mesmo? Mas eu gosto mesmo é de sentar em um banco na rua e ficar observando a vida acontecer. Eu gosto de cruzar, inesperadamente, por uma manifestação cultural que faça parte da vida real daquelas pessoas, não algo que foi feito para mim. E eu me sinto realmente feliz viajando quando eu aprendo algo que eu não sabia; quando o que eu achava que eu sabia é questionado ou quando eu lembro que no fundo não sei de nada. Quanto mais eu viajo, mais eu me torno consciente do quão diversos e iguais somos ao mesmo tempo. E, claro, que essa experiência é mais intensa - e mais transformadora - quanto menos eu souber sobre o lugar que estou visitando.

Por isso que eu tenho essa tendência de viajar a lugares inusitados. No início do texto usei a palavra "exótico" para se referir ao Bahrein, mas não gosto de usar essa palavra. Por definição, algo "exótico" é algo que não é natural, que é "de fora" e esquisito. Portanto um país só pode ser exótico se estiver relacionado a outro país e se pressupormos que tudo nele é diferente. Mas é verdade que infelizmente temos muito mais acesso a informações sobre alguns países do que outros. E também é verdade que existem países que são mais visitados do que outros. O que eu mais gosto quando visito algum país do qual não tenho tanta informação - e por isso "inusitado" - é que acabo ficando muito mais aberta. Como não chego com nenhuma expectativa e nenhuma imagem criada por outra pessoa, eu me torno presente, por inteira, no momento em que estou naquele país.


Bahrein não foi exceção. Foram quatro dias que pareceram um mês. Fui vazia de informações e voltei cheia de emoções, histórias e aprendizados. Me peguei chorando dentro de uma mesquita quando percebi que todos nós estamos falamos da mesma coisa. Fiquei sem reação quando a mulher que estava me guiando nessa mesquita captou minhas emoções de longe. Senti que as pessoas estavam cuidando de mim - e não sendo machistas ou preconceituosas - quando em restaurantes locais me colocavam em uma área isolada, longe de onde os homens ficavam. Vesti burca e hijab e senti na pele a sensação de maior conexão com meu eu superior, com o divino, com Allah ou com Deus (pode escolher o nome que quiser). Fui a uma praia onde eu e minha amiga erámos praticamente as únicas de biquini e ao invés de me sentir exposta, fiquei tomando o cuidado de não ser muito desrespeitosa. Me surpreendi quando a bateria do nosso carro morreu no meio da avenida, dois policiais pararam para nos ajudar voluntariamente e - além de não terem pedido nenhum dinheiro - foram extremamente respeitosos e nos deram até água.

Cada população tem uma relação diferente com questões como espiritualidade, valores pessoais/comunitários e forma de se vestir. Da mesma forma como para as pessoas de países com cultura ocidental parece muito estranho e machista o uso de burca e hijab, em muitas comunidades indígenas e na África não faz sentido as mulheres precisarem cobrir seus seios, mas os homens não, por exemplo. Assim como questionamos o tempo todo religiões e crenças que não conhecemos mas quanto mais nos abrimos para o "diferente", mais entendemos que no fundo é tudo a mesma coisa, o que muda são os detalhes, o "acabamento".

As vezes acabamos caindo em outra armadilha e achamos que só porque passamos alguns dias em determinado lugar sabemos tudo sobre ele. É claro que isso também não é verdade. Viajar é uma ferramenta poderosa e transformadora, sem dúvidas. Mas na minha opinião quando viajamos conhecemos mais sobre nós mesmos, do que sobre as pessoas daquele lugar. Para realmente conhecer e - mais importante - entender as dinâmicas de cada lugar precisaríamos de grande imersões, o que normalmente não é o caso. Mas sem dúvida nenhuma, quanto mais eu me deparo com o "inusitado" e "diferente", mais eu amplio meus questionamentos nessa jornada em busca da diversidade e do auto conhecimento.

Vale a pena visitar o Bahrein? Bom, na minha opinião qualquer lugar "vale a pena" quando as intenções da viagem vão além das fotos de cartão postal.

#OrienteMédio #Inspirese #Bahrein

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Ana Carolina Ussier

Uma mulher viajante, com sol em aquário e lua em sagitário. Tenho muitas versões: engenheira por formação, gerente de projetos por convicção e dançarina por vocação, mas acima de tudo uma grande incomodadora inconformada. Apaixonada por inclusão social e pelo universo feminino. Vivendo pela África Ocidental desde 2017, agora sem residência fixa.

 

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