• Carol Ussier

Povos da África Ocidental: Tallensi, sagrados e acéfalos

Estamos vivendo em isolamento social há muitas semanas e quanto mais tempo eu fico em casa, mais eu me questiono sobre as informações que compartilho e o conteúdo que gero (ou deixo de gerar). Eu gosto muito de ser uma comunicadora, mas tenho consciência da responsabilidade que isso significa em plena era digital e por diversas razões vinha postergando um projeto antigo de escrever sobre a diversidade cultural da África Ocidental. Neste momento senti muito forte de compartilhar aquilo que eu sei sobre algumas das etnias desta região do mundo que chamo de casa e algo que aprendi com cada uma delas.


Quero começar esta série de artigos esclarecendo que quando falo de etnias, não me refiro a povos isolados, mas sim a povos originários que mantiveram seus saberes tradicionais: grupos de pessoas que compartilham da mesma história, cultura, estrutura social e familiar, sistema de crenças, costumes, etc. É importante fazer essa distinção para evitar a imagem errônea mas muito frequente no imaginário do mundo ocidental que julga esses povos como primitivos e selvagens.


Todas as informações são frutos de experiências pessoais minhas com pessoas de cada uma das nações, mas também de bastante pesquisa.


Para iniciar esta série sobre as etnias da África Ocidental, hoje vou escrever sobre o povo Tallensi.


Meu primeiro contato com os Tallensi foi em julho de 2017 durante uma viagem pela região nordeste de Gana (Upper East Region). Naquele ano visitei brevemente Tongo, uma das vilas de Taleland (região geográfica habitada por esta etnia). Nesta viagem, e quando estive novamente lá em março de 2020, ficou muito evidente que apesar de fazer parte de um grande grupo étnico chamado Gurunsi, o povo Tallensi possui caracteríticas particulares, que o torna único, como seu idioma local: Talni.


Os Tallensis são originalmente acéfalos, ou seja, sua organização social e política é descentralizada. Antes da colonização não haviam reis como em outras etnias, mas sim pessoas que eram as donas das terras, cujo papel se limitava à organização espacial e geográfica de cada família ou clã. Ou seja, haviam líderes comunitários, não governantes. Com a invasão europeia, Taleland, que antes era como um cinturão neutro e acéfalo no meio de vários outros Estados (Reino de Dagbon e Reino Mamprugu ao sul e Império Mossi ao norte), acabou sendo pressionada e influenciada pelos colonizadores invasores e também por estas outras etnias, que muitas vezes estiveram envolvidas no tráfico de pessoas. Por esta razão, hoje em dia as vilas habitadas por Tallensis possuem chiefs (leia mais) e são sociedades patrilineares, ou seja, a sucessão acontece sempre pela família do homem. Por sinal, esta mesmo lógica se aplica às famílias: quando um homem e uma mulher se casam, a mulher se muda para a casa da família do homem e seus eventuais filhos ou filhas "pertecem" a ele e não à ela. O que na prática significa, por exemplo, que em caso de divórcio, a guarda das crianças é automaticamente atribuída ao pai.


Uma das coisas que mais me chamou a atenção em minha primeira visita foi a cosmologia Tallensi e a conexão profunda que esse povo mantém com o plano espiritual. Mais tarde eu soube que eles são famosos em todo o país por habitarem uma área com "poderes sagrados" e que pessoas de diversas outras etnias e regiões visitam Tongo para se conectarem com o divino. Sendo essa uma das principais características deles, a história dos Tallensi não poderia ser diferente. A lenda contada há séculos por tradição oral diz que os atuais Tallensi são compostos por dois povos: os Tallensi "originais" teriam emergido da terra ou sido enviados diretamente do céu para Tengzuk (Taleland) e mais tarde um grupo de imigrantes Mamprusi teria se juntado a eles.


Na cosmologia Tallensi o plano espiritual é dividido em 3 setores: ancestrais, entidades e divindades (deuses e deusas). Isto é, além de acreditarem na existência de uma divindade criadora de tudo (Yi) e em outras divindades como Golib, deus(a) da agricultura, e Tongnaab, deus(a) da fertilidade, a conexão espiritual se dá também muito forte através de ancestrais e outras entidades, normalmente representadas por elementos naturais como árvores, morros, cavernas, lagos e rochas. As/os ancestrais são considerados mensageiras entre o plano material e as tais divindades superiores e, por esta razão, são muito veneradas/os. Um exemplo disso é a construção de altares para ancestrais no centro de cada casa, para os quais são entregues oferendas frequentemente (como penas e sangue de galinhas). Para esta etnia, as/os ancestrais também podem escolher reencarnar quando precisam trazer alguma mensagem para o plano material, mas a reencarnação não precisa acontecer necessariamente em forma humana. Alguns ancestrais muito importantes, por exemplo, reencarnam como crocodilos e por isso matar este animal é um tabu: seria como matar uma outra pessoa.


Tradicionalmente, quando uma pessoa morre ela não se torna automaticamente um(a) ancestral. Este reconhecimento espiritual (se é que eu posso usar este termo) depende de uma série de comportamentos e atitudes tomados enquanto a pessoa viveu. Um dos fatores mais importantes para ter o direito de se tornar um(a) ancestral é garantir a continuidade de sua família, ou seja, ter filhas/os. Por esta razão, a primeira criança da família é normalmente tratada de maneira diferente e cuidadosa, sendo muito importante em todas as ocasiões e tendo diversos tabus ao redor dela. Não preciso nem dizer o quanto a parentalidade, nesse contexto, é inquestionável, né?


Em Tongo eu vivi duas experiências muito marcantes, ambas conectadas à espiritualidade Tallensi. Em 2017, durante minha primeira visita, visitei um dos templos de Tongo - Tonna'ab Shrine - que fica a alguns minutos de caminhada da vila, em meio a plantações de milho e de sorgo. Tonna'ab é uma pequena caverna no topo de um morro, considerada a morada de uma das deidades mais importantes dos Tallensi - Tongnaab, deus(a) da fertilidade. No interior do templo há inúmeros objetos em madeira, penas de galinha, manchas de sangue e cinzas, marcas dos rituais de libação e de sacrifício executados pelo xamã, que conversa diretamente com Tongnaab ou por intermédio de ancestrais. Para entrar no templo, além de estar acompanhada pelo xamã, é obrigatório estar descalça, com os joelhos a mostra e com toda a parte superior do corpo nua (ou seja, retirar camiseta e sutiã).


Celebrações no Festival Golib (povo Tallensi, em Gana)

A segunda experiência foi em março de 2020, quando por acaso eu visitei Tongo durante o Festival Golib (ou Gologo), realizado anualmente no final da estação seca para pedir uma boa safra à divindade da agricultura (Golib). As celebrações acontecem assim que a terceira lua cheia do ano é avistada no céu e indica que em breve a terra deverá começar a ser preparada para a plantação de milho, sorgo e painço. Durante 28 dias os homens Tallensi devem ficar sem camisa, com o busto nu e uma toalha cobrindo suas costas; as mulheres devem enrolar uma toalha ao redor de seu corpo.






O momento mais importante do festival acontece nos 7 primeiros dias assim que a lua for confirmada, durante os quais os homens de cada uma das vilas em Taleland tocam instrumentos, cantam e dançam em roda em um verdadeiro ritual de conexão com o solo e com a energia masculina, de ação e força. Caso queiram, as mulheres também podem dançar, mas tradicionalmente o engajamento dos homens é mais esperado - e cobrado - neste festival. Em outro momento do ano, no final da estação chuvosa (entre outubro e novembro) e após a colheita dos grãos plantados, os Tallensi organizam seu segundo festival anual: Boaram, um festival de celebração e gratidão pelo ciclo que se fecha de uma boa safra. Durante as celebrações da colheita, as mulheres dançam muito mais ativamente do que os homens.



Considerando este momento único e muito significativo que estamos vivendo com a expansão de uma pandemia global, não posso deixar de pensar em algo que me marcou muito em meu breve contato e pesquisas sobre os Tallensi: a espiritualidade por meio da conexão com nossa Mãe Terra, ou em outras palavras, uma espiritualidade terrena e aterrada. Coincidentemente ou não, este vídeo foi gravado poucas horas antes dos primeiros casos do novo vírus serem confirmados em Gana, e apenas 3 dias antes do Governo iniciar medidas de distanciamento social, como a suspensão de todos os festivais em território nacional. Bom, pelo menos este povo teve tempo de se energizar bastante e, tomara, garantir assim uma boa safra para 2020, apesar de todo o sofrimento global. Tomara também que nós, ocidentais e brasileiras, possamos aprender um pouco mais sobre e com os povos originários deste Planeta.

40 visualizações
Ana Carolina Ussier

Uma mulher viajante, com sol em aquário e lua em sagitário. Tenho muitas versões: engenheira por formação, gerente de projetos por convicção e dançarina por vocação, mas acima de tudo uma grande incomodadora inconformada. Apaixonada por inclusão social e pelo universo feminino. Vivendo pela África Ocidental desde 2017, agora sem residência fixa.

 

Conheça mais

 

© 2017 by Carolando no Mundo. Todos os direitos reservados