• Carol Ussier

Road trip em Camarões

Atualizado: Mai 12



Tendo cumprido a minha maior missão em Camarões - subir o maior pico da África Central e Ocidental - chegou a hora de descobrir uma nova região do país: a Ring Road , um lugar famoso por ter paisagens lindas e uma cultura muito rica.

Eu normalmente viajo sozinha e de maneira independente, mas o contexto da minha viagem a Camarões era o seguinte: pouco tempo de viagem, pouca informação disponível e uma situação política meio complicada (com bloqueios de estrada, conflitos entre civis e exército, etc). Somado a isto, para conhecer a região que eu queria conhecer é extremamente recomendado um carro 4x4, pois o caminho é majoritamente em estrada de terra ou off road. Alugar um carro e dirigir sozinha acabaria saindo tão caro quanto contratar a agência e eu não teria ninguém me explicando as coisas no caminho.

Dito isso, se você assim como eu gosta de uma boa aventura e tem flexibilidade de datas saiba que dá para viajar sem contratar agência. Não é impossível viajar entre um vilarejo e outro sem alugar carro. mas também não existem ônibus na região. Então a melhor opção disponível na Ring Road nesse caso é subir na garupa de um moto-táxi e engolir muita poeira.

Eu tinha acabado de voltar da caminhada ao Mt. Cameroon e estava descansando (vulgo me recuperando) em um hotel bem simples em Buea. Por volta das 21h do mesmo dia o Buma Peter, dono e guia da agência Ecotours. passou para me buscar. Pegamos um ônibus noturno entre Buea e Bamenda, porta de entrada da Ring Road. O ônibus era relativamente confortável para os padrões de Camarões. O meu banco não reclinava (mas os outros sim) e o ar-condicionado estava quebrado, mas fez frio durante metade do percurso. De qualquer forma na minha avaliação essa é a melhor opção para chegar até a Ring Road e também a mais barata (empresa do ônibus: Amour Mezam).

Apesar disso, a viagem em si foi com toda a certeza a pior viagem terrestre que eu já fiz na vida (e eu coleciono perrengues). Pense em uma combinação "maravilhosa" de estrada completamente esburacada e cheia de curvas fechadas. com um motorista pisando forte no acelerador enquanto subíamos a serra. Para completar, adicione uma caixa de som no último volume tocando afrobeats durante todo o caminho. Resultado: nem um minuto dormido e a sensação de estar em uma batedeira por uma noite. Bom, definitivamente começava a segunda parte da viagem ao melhor estilo "carolando": cheio de perrengues e bem off the beaten path.

Dia 1: Bamenda | Bafut | Babungo | Oku

Chegamos em Bamenda quase 6h da manhã, pouco antes do sol nascer. O motorista que iria nos acompanhar em toda a rota nos buscou na "rodoviária"e nos deixou em um hotelzinho, onde pudemos dormir por 2 horas (acho que a minha cara estava tão ruim que acharam melhor me deixar descansar um pouco). Agora éramos 4: eu, Buma Peter (o guia), o motorista e Josephine, uma aspirante a guia.

Energia carregada e café da manhã tomado, caímos na estrada com noss 4x4 carinhosamente apelidada de Fombi. O que deu para ver de Bamenda nas poucas horas que fiquei por lá é que é uma cidade bem agitada, com muitos mercados de rua e bem comercial.

Nosso primeiro destino em Ring Road foi o Palácio de Bafut. Como eu já estava morando na África Ocidental havia 1 ano e já tinha visitado muitos chiefs e seus palácios, confesso que não tinha grandes expectativas. Minha curiosidade era mais com relação às diferenças culturais que encontraria entre Gana e Camarões. Depois de 30 minutos de estrada chegamos ao palácio e tive o primeiro choque da viagem: que lugar maravilhoso! Uma ótima introdução a todos os lugares impressionantes que eu ainda visitaria e não tinha a menor ideia.

A estrutura de "reinos"em Camarões é bem parecida com a de Gana, que eu já contei por aqui. Há centenas - ou milhares - de monarcas vitalícios que lideram suas tribos/etnias. Para os povos indígenas do Brasil, por exemplo, seria o equivalente aos caciques; em Gana esses líderes são chamados de "chiefs"; e na região noroeste de Camarões são os Fons, daí o apelido carinhoso da 4x4 (trocadilho entre Fon e Kombi - e uma homenagem a uma amiga querida).

Uma das esposas do Fon de Bafut (eram 48 na época) nos guiou em uma visita ao palácio e ao museu, que é bem completo e conservado. Foi uma visita longa: quase 2 horas depois estávamos na estrada novamente.

A rota até a próxima parada também foi uma introdução ao que seriam os próximos dias: trechos longos, cansativos, esburacados e de tirar o fôlego de tão bonitos. Após algumas horas paramos em mais um palácio, de Babungo. Não tive tempo suficiente para falar com as pessoas desse fondom (fondom = reino/população), mas visitei o museu do palácio, também bastante interessante. A estrada depois desse lugar, apesar de esburaca, é asfaltada. Passamos por vários vilarejos enquanto subíamos a serra. Essa região é bem montanhosa e muito diferente do que eu estava acostumada a ver em Gana.

Já quase no final do dia chegamos ao nosso detsino final do dia - Oku - mas ainda tínhamos muitas coisas para ver. Passamos primeiro pelo Lake Osu, um lago lindo que se formou na cratera de um vulcão. Há uma lenda em Oku que diz que o lago foi criado para o primeiro Fon de lá por seus ancestrais. Outra curiosidade do lago - para os amantes de biologia e animais - é que há uma espécia endêmica de sapo, que só existe no Lake Oku.

Subimos de volta ao carro e agora éramos em 5 na Fombi: nós 4 e o David, que trabalha no palácio de Oku, tem uma pousada e é o guia oficial dessa vila. Nossa próxima parada foi a cachoeira Tolom. Como em toda esta viagem. eu não tinha a menor ideia de como era a cachoeira e muito menos do quão difícil é chegar até lá. O guia David falou "vamos?" e eu respondi "vamos!". Confesso que em toda a descida apenas uma coisa passava pela minha cabeça: "por que eu invento essas coisas?" (deja vu da caminhada até o Mt. Cameroon, rs). Mas como (quase) tudo nessa vida, não me arrependi em nenhum momento. É uma bela cachoeira e a trilha foi aquela típica injeção de adrenalina que eu adoro (mas se você não se sente confortável fazendo trilha, não recomendo).

Por fim, já com o sol se pondo, chegamos ao museu e palácio de Oku. Não foi o palácio mais impressionante do dia, mas com certeza foi o museu mais emocionante de toda a viagem. O povo Oku é famoso por suas esculturas em madeira - uma fama merecida. Mas o que mais me emocionou foram as dezenas de salas com jujus - que são máscaras e vestimentas que quando vestidas por algumas pessoas da comunidade manifestam poderes "sobrenaturais". Em outras palavras, várias etnias da África Ocidental (principalmente na Nigéria e em Camarões) atribuem a suas jujus relações com o "divino", com "espíritos", com forças "do além".

Eu lembro de ter lido sobre eles no Hibisco Roxo, livro da Chimamanda Ngozi, e da descrição de como as crianças tinham medo e admiração por jujus (sem gênero específico). Visitando essas salas no museu de Oku eu me senti uma dessas crianças. A cada sala e novxs jujus era uma mistura de encatamento com medo. Meus olhos se encheram de lágrimas em muitos momentos e eu senti a presença de outras formas de energia comigo. Pode parecer muita bobagem (e se for, pode pular para o próximo parágrafo), mas eu me senti parte daquilo. Foi tão emocionante que eu comprei uma escultura de madeira de uma ancião e até hoje toda vez que olho para ela em minha casa eu sinto como se tivesse um guardião me olhando.

Depois dessa visita intensa, o dia finalmente chegou ao fim. Nesse primeiro dia da road trip pela Ring Road dormimos na pousada do David ("King David") e já deu para para ver como seriam as próximas noites. É uma pousada bem simples, com uma manta bem brega na cama (mas quem liga para isso, não é mesmo?), sem assento no vaso sanitário e sem água corrente durante 90% do dia.


Para a minha alegria, a esposa do David ferveu um balde de água para mim, que usei para tomar banho de caneca (já era melhor que o banho de lencinhos umedecidos da trilha) e fez uma panela de ensopado de batata com repolho muito saboroso e ideal para o frio que estava fazendo (sim, também faz frio na África!).

Coloquei a blusa mais quente que eu tinha, me enrolei em um lenço, entrei no meu saco de dormir, me cobri com a manta brega e tive uma bela noite de sono. Ainda bem que tive pelo menos uma noite bem dormida, porque o que me aguardava no dia seguinte não seria fácil.

#Camarões #África #Roadtrip

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Ana Carolina Ussier

Uma mulher viajante, com sol em aquário e lua em sagitário. Tenho muitas versões: engenheira por formação, gerente de projetos por convicção e dançarina por vocação, mas acima de tudo uma grande incomodadora inconformada. Apaixonada por inclusão social e pelo universo feminino. Vivendo pela África Ocidental desde 2017, agora sem residência fixa.

 

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