• Carol Ussier

Queen mothers: empoderamento feminino ou machismo?


Eu já escrevi antes sobre a função dos “reis” em cada comunidade de Gana. Eles são figuras tradicionais, que representam os interesses dos moradores de sua vila (inclusive aos políticos) e possuem cargo vitalício. Os reis (ou chiefs) de um determinado local normalmente pertecem à uma mesma família: a “família real”. O que eu não comentei antes é que na maioria das etnias de Gana essa linhagem é matrimonial e que a escolha do próximo chief depende exclusivamente de uma mulher: a Queen Mother.

​Queen mothers (rainha-mãe) são as mulheres que pertecem à família real e que exercem um papel de liderança em sua comunidade, de forma vitalícia assim como os chiefs. Ou seja, cada comunidade ou vilarejo possui não apenas um chief mas também uma queen mother. Mas não se precipitem! As queen mothers não possuem esse nome por serem esposas dos chiefs. Muito pelo contrário, a maioria delas não é nem casada com o chief.

Mas qual é a relação entre o chief e a queen mother de uma mesma comunidade?

Se você leu o texto sobre os chiefs, talvez vá lembrar que eu comentei que os chiefs são indicados por pertecerem à família real e que o conselho dos anciões deve aprovar sua nomeação. Pois bem, a pessoa que indica o novo chief é, na verdade, a queen mother e ele sempre faz parte de sua família. Ou seja, os chiefs são normalmente filhos, netos, irmãos, sobrinhos, etc. da queen mother. A família real é a família da mulher, não do homem.


​Você pode estar se perguntando o que acontece nos casos em que a queen mother falece antes do chief. Nesse caso, é papel do chief indicar alguma mulher de sua família. Foi o que aconteceu, por exemplo, no final de 2016 no principal “reino” de Gana, chamado Asante Kingdom. A queen mother dessa região faleceu aos 111 anos e após 39 anos exercendo esta função. O chief – que nessa região é chamado de “asantehene”- indicou a sua irmã para a função de queen mother (foto ao lado).

Qual é o papel da Queen Mother?

Não podemos confundir as queen mothers de Gana com o que chamamos de rainha-mãe em algumas monarquias. Como eu acabei de explicar, a queen mother não possui esse nome por ser mãe do chief. Em uma das línguas locais (twi) essa função é chamada de ohemmaa, que significa chefe de estado do sexo feminino, mas assim como no caso do chief, o papel da queen mother é um pouco confuso. Em resumo elas são responsáveis por qualquer assunto que seja levantado por uma mulher de sua comunidade. Ou seja, elas defendem os interesses das mulheres. Na maioria das comunidades elas acabam também se engajando com todos os assuntos relacionados às crianças. Apesar disso me trazer muitos questionamentos olhando pelo lado positivo é interessante pensar que os direitos das crianças estejam sendo velados (mesmo que isso pudesse ser uma responsabilidade compartilhada entre chief/queen mother).

​Como representante das mulheres, a queen mother participa de todos os partos de sua comunidade e também de outros rituais tradicionais relacionados ao ciclo feminino (como cerimônias de menstruação, por exemplo). Além disso, qualquer reclamação ou pedido efetuado por uma mulher normalmente é endereçado pela queen mother e não pelo chief. Um exemplo atual é o movimento que algumas queen mothers têm organizado para lutar pelo direito das mulheres serem proprietárias de terras rurais – o que atualmente é super difícil em Gana.


Existem vários outros exemplos de “causas” não apenas apoiadas mas lideradas por queen mothers como a implementação de programas de prevenção à AIDS, educação sexual, eliminação de trabalho infantil e da mutilação genital feminina – ainda muito comum principalmente na região norte de Gana. ​​As queen mothers também mediam possíveis conflitos entre mulheres e homens de qualquer natureza. Mas talvez os assuntos mais comuns sejam problemas no casamento, adultério, violência doméstica e estupro.

E por fim não podemos esquecer que a queen mother tem o papel fundalmental de nomear o próximo chief. Além disso, uma coisa super interessante é que em muitas dessas comunidades elas também possuem poder de veto sobre o chief e por isso muitas vezes são consideradas as “líderes espirituais” em sua comunidade. ​

"Nós somos chamadas de queen mother porque como rainhas somos parceiras dos chiefs e como mães, nós cuidamos de toda a comunidade."

Machismo, empoderamento feminino ou nada disso?

Bom, antes de mais nada preciso reforçar que isso é um blog escrito por uma pessoa que apesar de tentar não é completamente isenta de julgamentos. Ou seja, eu posso ter uma opinião completamente diferente da sua e está tudo bem. Meu papel não é o de convencer ninguém a concordar comigo. Apenas gostaria de levantar alguns questionamentos. Mas antes de falarmos sobre opiniões, vamos falar de alguns fatos.


Eu comentei em um outro artigo o quanto eu acho interessante o papel tradicional dos chiefs ter se mantido mesmo após Gana ter passado por um longo período colonial. As queen mothers, porém, não tiveram essa “sorte”. Durante a colonização elas perderam o poder que exerciam pois os colonizadores negociavam apenas com os chiefs (e mesmo assim Gana tem exemplos de queen mothers que exerceram papeis militares super importantes - como Yaa Asantewaa, na foto ao lado). Nas regiões mais próximas à capital o papel da queen mother apenas perdeu importância, mas em outras regiões ele deixou de existir completamente. Por outro lado existem regiões em que aparentemente esta função nunca existiu.

No início dos anos 2000, movimentos regionais de empoderamento feminino trabalharam pela revitalização das queen mothers nas regiões do país em que essa função não existia. Foi o caso, por exemplo, da região norte, onde hoje em dia existem algumas queen mothers bem conhecidas. ​Em 2010 outro fato interessante aconteceu: as queen mother conseguiram aprovar 20 cadeiras fixas na National House dos Chiefs, que é como se fosse uma assembleia nacional dos líderes tradicionais. Apesar de poderem participar de todas as reuniões, as queen mothers ainda não possuem poder de voto como os 50 chiefs participantes. ​ E mais recentemente o conselho nacional das queen mothers de Gana se aproximou de outras líderes femininas de países africanos e acabaram formando uma rede pan-africana de líderes tradicionais do sexo feminino. Não sei se tenho uma opinião formada sobre tudo isso ainda. Quero ter a oportunidade de conhecer mais queen mothers e principalmente de outras regiões para ter uma visão mais realista. O que eu sinto é que originalmente a existência de um chief e uma queen mother era uma tentativa de igualdade entre os direitos/interesses dos homens e das mulheres. O que me parece uma ideia bastante interessante mas que com o tempo se perdeu e acabou virando algo diferente (ouvi falar de queen mothers que literalmente só têm voz quando é algo relacionado aos filhos ou ao matrimônio). Porém também me parece que recentemente um movimento maior tem sido formado no sentido de garantir direitos básicos às mulheres, como trabalho e renda, propriedade de terra, segurança e principalmente o direito de escolha (seja com relação à mutilação genital feminina, casamento infantil ou qualquer outro assunto). E você, o que acha sobre isso? As queen mothers podem ajudar no empoderamento das mulheres? De que forma? Deixe seu comentário, vou adorar saber sua opinião =).

#Gana #África #Curiosidades #Cultura

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Ana Carolina Ussier

Uma mulher viajante, com sol em aquário e lua em sagitário. Tenho muitas versões: engenheira por formação, gerente de projetos por convicção e dançarina por vocação, mas acima de tudo uma grande incomodadora inconformada. Apaixonada por inclusão social e pelo universo feminino. Vivendo pela África Ocidental desde 2017, agora sem residência fixa.

 

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