• Carol Ussier

Mount Cameroon - Parte 2


Subir o Mount Cameroon foi uma jornada de 3 dias que marcou a primeira metade da minha estadia em Camarões. Eu já contei o que me motivou a fazer essa trilha e também todos os detalhes do primeiro dia.

Apesar de todo o cansaço, era hora de continuar a caminhada e atingir meu objetivo: chegar até o pico do Mt. Cameroon. No primeiro dia eu ainda achava que desceria a montanha pela rota Mann's Spring (expliquei sobre a rotas no relato do primeiro dia), mas acabei optando por voltar pela mesma trilha da subida por diversas razões sendo a principal o tempo que eu tinha disponível. O lado bom dessa decisão foi que o acampamento do segundo dia seria no mesmo lugar da noite anterior, ou seja, eu pude deixar todas as coisas que eu não ia precisar durante o dia guardadas na barraca e levar comigo só o essencial.

Continuando o relato..

Dia 2 - Hut 2 (2850 m) até o Pico (4090 m) e de volta ao Hut 2 (2850 m)

6:30 Acordei e fiquei enrolando até ter coragem de sair da barraca. A noite não tinha sido muito boa: passei frio, não achei nenhuma posição em que não sentisse dores no quadril e nas costas e para completar nos poucos momentos em que peguei no sono tive pesadelos. Tomei mais uma vez meu banho de gato (vulgo lencinhos umedecidos) dentro da barraca, reorganizei minha mochila só com algumas barrinhas de chocolate 70%, água, amendoim e as camadas de roupa caso ficasse mais frio e encarei o choque térmico ao sair da barraca. Lembram daquela minha eterna pergunta "por que eu invento essas coisas?". Logo cedo e eu já tinha uma resposta: o sol estava nascendo em frente à barraca, o silêncio era absoluto (com exceção de mim, do guia Luis e do cozinheiro Joseph não tinha mais ninguém fazendo a trilha) e uma fogueira me esperava com chá quentinho e pão de forma com chocolate. Se eu pudesse, faria trilha todo dia para sempre começar um dia desse jeito!

7:10 Começamos a caminhada pontualmente nesse horário, dessa vez só eu e Luis (Joseph ficou no acampamento nos esperando). Uma coisa que eu não comentei antes é que apesar de eu ter acampado, o Hut 2 tem uma estrutura razoável. Então antes de começar a trilha de verdade, fiz uma pequena pausa no "banheiro" - uma casinha improvisada com um buraco no chão, coberto com uma tábua de madeira.

O segundo dia já começa com tudo: o primeiro trecho da caminhada é uma segunda versão da "the wall" do primeiro dia. Não dá nem tempo de aquecer o corpo um pouco antes de começar a subida. Pisei fora da barraca e já estava andando inclinada. É verdade que ela é um pouco menos íngreme, mas por outro lado a altitude estava ficando cada vez maior e consequentemente meu fôlego cada vez mais menor.

10:30 Venci o the wall 2 só para descobrir que tinha mais montanha para subir. O Mt Cameroon é uma caixinha de surpresas, daquele tipo de montanha que sempre quando você acha que está chegando no topo descobre que tem mais para subir. A inclinação dos dois paredões é tanta que não dá para ver o que existe além dele. Como é difícil achar palavras para descrever isso, dê uma olhada nas fotos abaixos. A primeira, do lado esquerdo, eu tirei do Hut 2. Nessa foto o "pico" da montanha é na verdade só o final do segundo paredão (que estou chamando de the wall 2). Mas quando cheguei nesse ponto uma nova subida se mostrou para mim. Na foto da direita - tirada ao final da subida do the wall 2 - dá para notar bem essa característica: a linha do horizonte na verdade não é o final da montanha, ali é onde fica o Hut 2, ou seja, é o final do "paredão"(the wall) do primeiro dia - mas por conta da inclinação não dá para ver que na verdade a trilha continua.

11:45 Chegamos ao último Hut antes do pico - Hut 3 - que fica a 3800m acima do mar. Nesse momento da trilha quanto mais subíamos em altitude, muito mais difícil ficava. E essa relação é exponencial! Apesar disso, do ponto de vista técnico a caminhada é muito mais fácil a partir do final do paredão pois existe uma trilha mais demarcada e com uma inclinação muuuuito menor. Depois de comermos algo, eu e Luis deixamos no Hut 3 tudo o que não precisaríamos nas próximas 2 horas, para aliviar o peso. Vesti todas as camadas de roupa que eu tinha, afinal nessa altitude o frio estava ficando maior. Meio dia em ponto retomamos a caminhada.


A partir do Hut 3 a paisagem é completamente diferente. Essa região já está muito próxima da cratera da erupção de 2000 e por isso é toda coberta por lava. Já tínhamos caminhado em floresta e em savana e agora a trilha era por um caminho cheio de pedrinhas (vulgo rochas vulcânicas). A sensação é como se estivéssemos caminhando em uma praia com areia bem grossa, mas a quase 4000m acima do mar. Sabe quando os pés afundam na areia e você tem que fazer 2x mais esforço para caminhar? Então, pensa que é assim, no frio e com falta de ar.

Luis me disse mais tarde que achava que eu não iria chegar ao summit, mas isso nunca passou pela minha cabeça. Eu só estava seguindo a minha velha técnica de andar 10m e parar por 10 segundos - e Luis foi extremamente paciente!

13:40 CHEGUEEEEEIII!



Depois do pico o caminho é o mesmo que relatei antes. A grande diferença é que é descida. Entre o pico e o Hut 3, por exemplo, levei apenas 30 minutos para descer, sendo que na subida levei 1 hora e meia para fazer exatamente o mesmo trecho. Quando chegamos ao Hut 3 a minha maior surpresa foi descobrir que o Luis tinha levado até lá um abacaxi! Sim, ele carregou um abacaxi montanha acima e eu agradeci muito.

17:00 Final do dia 2 com nossa chegada ao Hut 2, onde Joseph já nos esperava com a janta quase pronta. Nessa noite comemos arroz branco com um creme de amendoim bem típico de Camarões que estava maravilhoso! Sério, tive que pedir a receita para replicar depois, rs. Depois da janta tomei mais um banho de gato (leia-se: lencinhos umedecidos), troquei algumas camadas de roupa, agradeci mais uma vez por poder viver isso e encarei mais uma noite desconfortável e com pesadelos.

No total foram 8.8 km de caminhada no dia (4.4km de subida e 4.4km de descida) e um ganho de 1240m em altitude entre o Hut 2 e o summit. Apesar da inclinação ser maior no primeiro trecho desse dia, eu achei muito mais difícil caminhar a partir do final do paredão por causa da altitude. Segue o resumo do principais pontos:

Dia 3 - Hut 2 (2850 m) até Buea (1015 m)

O terceiro e último dia da trilha é pelo mesmo caminho que fizemos durante o primeiro: Hut 2 - the wall - Intermediaire Hut - Hut1 - floresta - final da trilha. Não vou escrever muito sobre esse dia porque já está tudo relatado lá no artigo sobre o primeiro dia da caminhada. O caminho é exatamente o mesmo e obviamente são as mesmas condições e paisagens. Mas não tem como não comentar sobre a dificuldade da descida.

Descer nunca é um problema para mim. Não tenho - pelo menos por enquanto - dores no joelho e também não ligo de andar vários kilometros. Por outro lado, não tenho um bom condicionamento respiratório, então subir é o que sempre me desafia. Mesmo assim, reconheço que descer o Mt Cameroon não é tão fácil quanto parece. Apesar de não ficar cansada em nenhum momento, o nível de tensão e de concentração na descida foi alto o tempo todo. Coma a inclinação é alta - principalmente durante o the wall - é preciso ficar muito atenta para não escorregar ou pisar em alguma pedra que não esteja fixa. Eu achava que descer seria muito mais rápido que subir, mas na verdade levamos apenas 45 minutos a menos e eu ainda ganhei 3 bolhas nas mãos de tanto apertar os bastões de caminhada e um pé da bota arrebentado!

Escalar o Mt Cameroon foi um desafio em muitos sentidos. Ele não foi a caminhada em maior altitude da minha vida e nem de longe é a mais longa que já fiz, mas ter que subir constantemente por 1 dia e meio e encarar a inclinação que em alguns trechos chega a 40-50% foi desafiador. Mas apesar das bolhas, dos pesadelos e das dores no quadril e nas costas, eu terminei mais essa caminhada com uma certeza renovada do quanto gosto de trilhas. de estar em contato com a natureza e de alcançar objetivos. Fazer essa caminhada não esteve sempre na minha lista de desejos. Na verdade foi apenas recentemente que isso se tornou um sonho. E como é bom realizar sonhos!

Para realizar esse sonho eu tive o apoio do Luis e do Joseph, da agência Ecotours Guide. Vou escrever mais um artigo para compartilhar informações práticas de como fazer essa trilha, quanto custa, o que levar, etc. Mas por enquanto fica aqui o contato da agência:

Ecotour Guides Cameroon (fale com Buma Peter, dono da agência) Website: www.ecotoursmtcameroon.wordpress.com Email: ecotourguidemtcam@gmail.com Tel (whatsapp): +237-77-037-475

O sonho tinha sido realizado, mas mal sabia eu que nos próximos dias em Camarões eu ainda viveria coisas que eu nem sonhava.

#Camarões #África #Trilhas

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Ana Carolina Ussier

Uma mulher viajante, com sol em aquário e lua em sagitário. Tenho muitas versões: engenheira por formação, gerente de projetos por convicção e dançarina por vocação, mas acima de tudo uma grande incomodadora inconformada. Apaixonada por inclusão social e pelo universo feminino. Vivendo pela África Ocidental desde 2017, agora sem residência fixa.

 

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