• Carol Ussier

A verdade sobre Gana


Em junho de 2017 escrevi um artigo sobre os preconceitos e julgamentos que temos sobre a África. Mais do que isso, eu quis discorrer um pouco sobre a falta de informações que temos e buscamos sobre este continente e como as pessoas no geral ainda o evitam. O artigo foi muito visualizado e compartilhado, o que por um lado me assustou um pouco (meio esquisito tanta gente comentando algo que escrevi), mas por outro me deixou muito muito muito feliz em conhecer tantos brasileiros que já estiveram na África ou sonham em estar por aqui. (Se você ainda não leu, é esse aqui)


Depois deste artigo eu tive a felicidade de receber em Gana minha família, em mais de uma ocasião, e foi aí que comecei a refletir sobre um outro tópico: estaria eu agindo errado em compartilhar só as coisas boas daqui? Quando eu escrevi o outro artigo eu estava cansada de só ver notícias e comentários ruins generalizados sobre a África. Me deixava muito incomodada as pessoas e os veículos de comunicação sempre associarem o continente a guerras, pobreza e doenças ou então - em outro extremo - a um infinito safári. Mas será que só compartilhando coisas boas eu também estava criando uma imagem equivocada sobre Gana - e África - e que isso seria tão ruim quanto só falar de coisas ruins?

Viajando com a minha família em Gana eu notei que talvez eu nunca tenha falado nem por aqui e nem no Instagram sobre as coisas que podem incomodar e dificultar um pouco viajar por aqui. Em Gana, por exemplo, praticamente não existem calçadas. As valas de esgoto ainda são abertas e as pessoas urinam e defecam agachadas em qualquer lugar, incluindo na avenida principal da capital do país. Banheiros ainda são tão raros na maioria das residências que existem até piadas e sátiras sobre isso (vejam um exemplo). Existem mais de 15 mil lixões ilegais no país e em 9 meses morando aqui eu ainda não visitei uma praia que fosse realmente limpa. O salário mínimo é aproximadamente R$220/mês e, como disse meu irmão, parece que a cidade nunca chega (não na forma como estamos habituados, pelo menos).

Por que eu nunca falei sobre isso antes?

Fiquei pensando algumas semanas sobre isso e pude pensar em diversos fatores. Alguns deles eram conscientes, por opção. Outros se mostravam de forma inconsciente e refletir sobre eles foi bastante interessante. Cheguei à conclusão de que eu conscientemente optei por não falar sobre as dificuldades de Gana pelas seguintes razões:

1) O planeta não precisa de mais uma pessoa falando coisas ruins sobre a África

A minha geração nasceu e cresceu ouvindo falar sobre as crianças que morriam de fome na África ou sobre o novo surto de ebola ou malária. Por outro lado, durante o período escolar não aprendemos nada sobre a história da África e nem sabemos distinguir os países. Quando eu comentava com as pessoas que iria passar um período na África as primeiras reações sempre eram "você tomou vacina?", ou "nossa, que coragem" e no máximo um "vai fazer safári?". Eu quero mostrar que tem muito mais vida por aqui do que os Safáris. Eu quero motivar as pessoas que já pensaram em vir para cá mas quando consultaram um médico (como eu) ouviram "não aconselho ir para essa região". Todos os lugares do mundo têm coisas boas e ruins. Facilidades e dificuldades. Mas infelizmente ainda é difícil encontrar informações sobre as coisas boas da maioria dos países africanos.


Talvez se você já teve vontade de viajar para a África você deve ter tentado procurar informações online. Atualmente existem alguns blogs com bastante dicas sobre os países do sul do continente (África do Sul, Namíbia, Botsuana..) e do leste (Kenya, Tanzania, Moçambique). Porém é muito difícil encontrar relatos sobre o restante do continente e, quando se acha, são notícias sobre guerras civis, sobre ter o menor IDH do mundo ou sobre o novo surto de alguma doença. Por curiosidade eu pesquisei por "o que tem na África" no google e os resultados comprovam que não precisamos de mais gente falando das coisas ruins - e nem achando que todo o continente é um grande safári.

2) O planeta não precisa de mais notícias ruins e pensamentos negativos

Infelizmente não é só a África que é alvo de comentários negativos. Não sei se esse tipo de informação é o que mais vende ou se realmente acontece tanta coisa negativa assim. Fato é que hoje em dia somos bombardeados por notícias sobre massacres, atentados, desastres naturais e corrupção. Acho que a diferença, no caso da África é que temos acesso limitado a outras fontes de informações. Apesar de todas as notícias quase semanais sobre atentados na Europa, nós conhecemos amigos e familiares que moram por lá, existem inúmeras agências de turismo e blogs onde podemos buscar informações turísticas e temos acesso ao lado "bonito" do continente (a dança, o cinema, a arquitetura, a literatura e todas as outras formas artísticas). Com o continente africano é diferente: ainda é difícil para nós, brasileiros, termos acesso a essas coisas. Mas elas existem, gente! Claro que existem.

Nesse cenário, eu como moradora do continente africano e como uma fonte - ainda rara - de informações sobre países como Gana e Togo me sinto muito responsável pelo o que eu comunico e a forma como faço isso. Não quero ser mais uma pessoa divulgando a cultura do medo e das falsas ideologias. Um exemplo bem concreto sobre isso foi em agosto de 2017 quando ocorreu um atentado terrorista em um restaurante em Ouagadougou, capital da Burkina Faso, na mesma semana em que outros atentados em Barcelona e na Finlândia aconteceram. Eu estava quase postando algo sobre o atentado da Burkina Faso em minha conta de instagram quando parei e pensei "eu nunca falei sobre as notícias boas de Burkina Faso, porque eu falaria sobre isso?". Sabe aquela história de empatia seletiva? Ela realmente existe. Mas eu também não acho legal ficar comparando qual notícia negativa é a pior. Ao invés disso, por que não passamos a falar mais sobre todas as coisas legais que acontecem no mundo, seja na Europa, no Brasil ou na África? Se você quer ver desgraça e se sentir mal, procure essas informações nos veículos de notícias brasileiros. Nos meus canais você provavelmente não vai encontrar.

3) "A vida é um eco", como diria uma amiga minha

Talvez você chame isso de lei da atração, de karma ou de vibração. Talvez você não acredite em nada disso. Mas na minha vida eu aprendi que quanto mais pensamentos negativos eu tiver, mais atraio. Isso se aplica ao aposto também, ou seja, coisas boas. E o fato é que meu tempo em Gana tem me mostrado isso de forma cada vez mais forte.

Quando minha mãe me visitou ela me disse que eu já "defendia" mais Gana do que o Brasil. Eu pensei muito sobre isso e cheguei à seguinte conclusão: eu não defendo, eu mudei. Não sei como será quando eu estiver no Brasil novamente, mas eu sei que a forma como eu vejo as coisas e reajo a elas mudou muito nos últimos meses. Eu sempre fui uma pessoa extremamente otimista - daquele tipo que chega a incomodar os mais céticos. Mas ao mesmo tempo em que era otimista, sempre fui muito crítica com tudo, inclusive comigo mesma. Eu vivia cheia de julgamentos e de comparações.

Desde que cheguei em Gana, em janeiro de 2017, eu me propus viver essa experiência de forma 100% aberta. Eu queria viver o novo sem comparar com o conhecido. Eu queria ouvir as histórias daqui, sem ideias preconcebidas. E isso tem deixado a minha vida cada vez mais leve. Eu não tive nenhuma experiência ruim por aqui ainda. Não vi violência, não peguei malária. Quanto mais eu aprecio o belo e o bom, mais alegre eu vivo. E isso se aplica à forma como eu tenho tentado me comunicar. Acredito que não valha a pena eu instigar o medo e o julgamento, mas sim a empatia e a beleza. Ao invés de usar a minha energia para pensar nas coisas que me incomodam, prefiro focar nas coisas que eu gosto, que eu recomendo e que me fazem feliz em qualquer lugar do mundo que eu esteja.

4) Tem muita coisa boa para ser compartilhada

E por fim, mas não menos importante, eu me questiono porque eu usaria meu tempo para falar sobre as coisas que me incomodam se eu tenho tanta coisa legal para falar? Todos os lugares bonitos que visitei e visito, as questões culturais e históricas que me conectam com meu país de origem (Brasil), tanta natureza (e não só safári!), as danças, as músicas, as cores, as atitudes positivas das pessoas. São tantas coisas que quero compartilhar que eu confesso que tenho uma listinha no meu celular com temas para pelo menos uns 20 artigos. Ou seja, tem assunto suficiente para me ocupar para o resto do ano (e dos muitos outros anos se eu continuar nesse ritmo lento, rs).

Resumindo...

O que eu tenho aprendido a cada dia e tentado aplicar cada vez mais na minha vida é a noção de que tudo nessa vida é uma questão de ponto de vista e de opinião. O bom e o ruim; o certo e o errado; o bonito e o feio; tudo não passa de julgamentos. O que para mim pode parecer um absurdo, talvez para determinado grupo em Gana seja uma questão cultural e faça bem a eles. Se eu falasse sobre as coisas que me incomodam por aqui, por exemplo, isso não passaria de julgamentos meus. E, como eu disse antes, o mundo não precisa de mais julgamentos e pensamentos negativos.

Existem oportunidades de desenvolvimento em Gana e nos outros países que visitei na África Ocidental? Claro que sim. Existe pobreza e falta de saneamento? Sim. Mas o que eu quero dizer é que o país e a região não se resumem a isso. A África não se resume a isso.

Eu continuo me apaixonando a cada dia mais pelo continente - ou pelo menos pelo o que eu conheço - e com vontade de ainda explorá-lo mais. E enquanto você não puder vir para cá, eu espero poder continuar compartilhando as minhas experiências e te inspirando a conhecer as coisas que eu tenho visto por aqui. Afinal de ódio e preconceitos o mundo já está cheio, não é mesmo?

#Inspirese #Gana #África

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Ana Carolina Ussier

Uma mulher viajante, com sol em aquário e lua em sagitário. Tenho muitas versões: engenheira por formação, gerente de projetos por convicção e dançarina por vocação, mas acima de tudo uma grande incomodadora inconformada. Apaixonada por inclusão social e pelo universo feminino. Vivendo pela África Ocidental desde 2017, agora sem residência fixa.

 

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