• Carol Ussier

Downhill em La Paz: a verdade sobre a Estrada da Morte


Quem já pesquisou sobre turismo em La Paz certamente já leu algo sobre o downhill da estrada da morte. Desde que eu comecei a pensar sobre a viagem, este era um item indispensável na minha lista. Aliás, já fazia um bom tempo que ele estava na minha bucket list. Todo mundo que tem um pouco de bom-senso provavelmente procura boas informações sobre o downhill. É perigoso? É comum fazer ele? Quais são os riscos? Eu conheço alguém que já fez? Que precauções devo tomar? Qual é a agência mais segura? Com muitos depoimentos de mochileiros e viajantes que foram e recomendam, decidi fazer. Li muita coisa do tipo "desça com cuidado, segurando no freio e se divirta" ou "nem é tão assustadora assim". Então fui eu lá experimentar.. e deixo aqui o meu depoimento. Quem sabe ele ajude (ou não) quem ainda tem dúvida... ​

Para quem não faz ideia do que eu esteja falando, a estrada da morte (ou "estrada mais perigosa do mundo"), famosa pelas fotos na beira de precipícios, ligava a cidade de La Paz à Coroico e foi apelidada com este nome pelo BID devido ao altíssimo índice de acidentes fatais que ocorreram na década de 90. Com a construção de uma nova estrada, os automóveis deixaram de passar pela Estrada da Morte, que virou então um famoso destino para turistas e ciclistas. Para conhecer o trajeto é necessário contratar uma agência especializada. Começando em La Paz, seguimos de ônibus até o ponto chamado "La Cumbre"(4700m). De lá iniciamos o trajeto com as bikes, ainda em uma estrada de asfalto. Depois de 2 paradas ("Unduavi"e "Chuspipata"), entramos efetivamente na Estrada da Morte (todo o trecho em vermelho). O downhill termina em Yolosa (1200m). ​

Mapa do downhill na Estrada da Morte

A minha experiência na Estrada da Morte

Ponto de partida da Estrada da Morte (olha eu ali! juro que sou eu!)

Quando eu comprei o pacote estava bastante animada. A bicicleta que eu escolhi tinha um bom sistema de freios, a agência deu todo o suporte possível e tinha ótimas recomendações. Antes de sair, contudo, nos fizeram assinar um termo de responsabilidade BEM completo. Era algo como "você está sujeita à morte e nós nos isentamos de toda e qualquer responsabilidade". Até aí, OK, faz sentido. Era opção minha fazer a atividade e a agência precisava do respaldo caso fosse necessário, o que havia baixíssima probabilidade (pelo menos era isso o que todos os artigos que eu li antes diziam). ​ Chegamos no ponto de partida e começamos a nos preparar com todos os equipamentos de segurança: calça, jaqueta, joelheira, cotoveleira, luvas e capacete. Um dos guias (tínhamos 1 a cada 4 pessoas) passou algumas instruções, ressaltando que não deveríamos em hipótese alguma pressionar os freios bruscamente. "Isso é muito perigoso", foi o que ele disse. Confesso que neste momento me deu um frio na barriga. Fui descendo bem devagar, sempre com as mãos nos freios, sem me preocupar em ser uma das últimas do meu grupo. Afinal, eu não estava lá para competir com ninguém. Só queria aproveitar o momento de maneira segura. Estava tudo bem.. tudo bem legal, adrenalina, paisagens lindas. E aí... eu CAÍ! E, sim, foi fazendo exatamente o que o guia tinha falado para não fazer de forma alguma. Mas eu tenho uma boa explicação, afinal sou uma ótima motorista (haters dirão que é mentira...). O que aconteceu foi o seguinte: a corrente saiu do lugar e com isso meus pés acabaram escapando dos pedais. Olhei para baixo para arrumar, enquanto continuava descendo devagar. Eu juro que eu achei que foi uma olhada rapidinha, mas quando olhei para frente novamente eu estava cerca de 5 metros da curva e, consequentemente, de um precipício. Pessoas equilibradas e sensatas teriam tido tempo suficiente de fazer a curva e continuar a descer com a bike. Mas como eu sou levemente ansiosa, com o susto de ver a curva se aproximando eu apertei os dois freios ao mesmo tempo e provavelmente com muita força (não lembro exatamente, foi tudo muito rápido). Os próximos segundos foram bastante assustadores, com a bike travando e eu voando por cima dela, me estatelando no meio da estrada. Apesar de ansiosa, eu também sou bem cuidadosa e mal tinha caído já estava me arrastando para o acostamento, para sair da circulação e esperar a o ônibus de apoio passar. Eu estava ainda bastante assustada e decidi subir no ônibus, para recuperar meu fôlego antes de voltar a pegar a bike. O que eu descobri enquanto eu "recuperava meu fôlego" era que eu não tinha força no meu braço direito e a minha barriga doía demais (logo eu acabei percebendo que parte da minha barriga estava em carne viva). Por isso não peguei mais a bike, terminei o trajeto no ônibus mesmo. Mais tarde um israelense se juntou à mim, com o ombro completamente deslocado e gritando muito de dor após também ter caído.

Cheguei ao hostel ainda com a barriga doendo muito e quando tentei tirar a roupa percebi que a parte superior do meu braço direito não mexia e que na verdade ele também estava doendo. Encontrei com alguns amigos que fiz ao longo da viagem e eles me deram um remédio "caso piorasse a dor". Acabei tomando 3 comprimidos para conseguir dormir um pouco. ​ Meu plano inicial era sair de La Paz na manhã seguinte, mas acabei indo até o hospital para checar se estava tudo bem antes de seguir viagem. Os médicos foram bem atenciosos, cuidaram da ferida da barriga, me deram uma injeção para dor e fizeram raio-x do meu braço e ombro. Afirmaram que não havia lesão nenhuma e que deveria ser uma inflamação muscular, mas meu seguro saúde não autorizou a ressonância magnética. Me assegurei com eles de 2 coisas: se eu podia continuar viagem e se poderia me tratar apenas no Brasil. Eles disseram "sim" para as duas perguntas.

Feliz no dia seguinte à queda, com a tipoia improvisada

Comprei o anti-inflamatório e a pomada que me receitaram, usei um lenço que eu tinha na mala como tipoia e segui viagem, sem conseguir mexer meu braço até o final dela, como vocês verão. Hoje, mais de 4 meses depois do dia que eu caí, ainda sinto dores esporadicamente no braço e tenho mais 24 sessões pendentes de fisioterapia para a FRATURA que eu tive na cabeça do úmero, além de uma cicatriz bem bonita na barriga.

Isso significa que eu não recomende a Estrada da Morte?

Bom, minha intenção aqui não é discorrer sobre como os médicos na Bolívia erraram o meu diagnóstico e nem como eu fiquei 2 semanas viajando (e inclusive fazendo a trilha inca) sem saber que eu tinha quebrado o braço. O que eu quero com este relato é mostrar para as pessoas que existem riscos reais no downhill. Que as estatísticas verdadeiras são assustadoramente maiores do que aquelas divulgadas em blogs de viagem ou artigos na internet. Alguns fatos: - Éramos em 9 pessoas no grupo. Eu e o israelense nos machucamos (ele foi deixado no hospital no retorno); - O motorista do ônibus me contou que todo dia eles terminam o tour deixando alguém no hospital. Sim. TODO DIA; - Quando cheguei no hostel e contei para um amigo que conheci em Sucre, ele me disse que no dia anterior outras duas brasileiras tinham caído. Uma teve que voltar ao Brasil para colocar pinos no braço e a outra não conseguia nem falar de tanta dor que tinha com um hematoma; - Um casal de estrangeiros paga uma ambulância para ficar na estrada, depois do filho ter morrido fazendo o downhill e o socorro não ter chegado; - Ao longo da viagem conheci pelo menos mais 3 pessoas que caíram. Uma delas teve que ir para a UTI e como não tinha seguro saúde pagou mais de R$4.000 para ser atendida. Essas são só algumas das histórias que eu acabei ouvindo depois que eu caí. Então eu falo para as pessoas não fazerem o downhill? Não! Para quem não cai, o trajeto é realmente muito legal. A paisagem é maravilhosa, é uma experiência única e eu também conheci MUITA gente que fez e não aconteceu absolutamente nada. O que não podemos fazer é negligenciar os riscos. Vale a pena refletir mais de uma vez se você quer assumi-los ou não. Terminar o downhill deve ser realmente incrível. Mas lembre-se que você pode não termina-lo...

Se me perguntarem, eu afirmo que fiz o caminho todo!

Para quem leu até o fim e ficou pensando "nossa, que emoção deve ter sido cair no meio da estrada da morte" eu tenho um segredo para contar: não deu tempo de chegar nela. Na verdade, não deu tempo nem de chegar na primeira parada..... ​

Local da minha queda, entra a partida e o primeiro ponto de encontro, ainda no asfalto

Vou fazer um pequeno ajuste nesta imagem (que é de uma camiseta que eu ganhei lá): "Yo sobrevivi el camino de la muerte EN AUTOBUS" , rs.. ​

#Aventura #Bolívia

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Ana Carolina Ussier

Uma mulher viajante, com sol em aquário e lua em sagitário. Tenho muitas versões: engenheira por formação, gerente de projetos por convicção e dançarina por vocação, mas acima de tudo uma grande incomodadora inconformada. Apaixonada por inclusão social e pelo universo feminino. Vivendo pela África Ocidental desde 2017, agora sem residência fixa.

 

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