• Carol Ussier

15 mulheres artistas da África Ocidental para conhecer

Atualizado: 3 de Set de 2019

Eu sou uma verdadeira apaixonada pela África Ocidental. São muitas cores, muita diversidade e culturas riquíssimas. Em minhas plataformas eu já falei e escrevi bastante sobre a história daqui, sobre lugares e sobre padrões comportamentais, mas dessa vez vim compartilhar um novo tópico pelo qual também me interesso muito: a arte da África Ocidental!


Desde meu primeiro mês por essa região eu tento consumir cultura local, pois acredito que grande parte de uma experiência em outro país seja a imersão em sua cultura. Sempre que chego em um novo país, por exemplo, pergunto para as pessoas locais quais são seus artistas preferidos e assim vou montando a minha própria lista de "favoritos". Recentemente eu me surpreendi quando um amigo me disse que não conhecia a Chimamanda Adichie, que talvez seja uma das pessoas mais famosas daqui no mundo Ocidental. Foi então que lembrei que realmente consumimos pouquíssimas coisas "africanas" no Brasil. Tudo o que é da "África" ainda é exótico e muitas vezes desvalorizado. Como nem sempre é fácil encontrar esse tipo de informação, decidi compartilhar mais por aqui sobre meus livros, músicas e filmes favoritos da África Ocidental.


Escolhi começar por 15 mulheres incríveis que me inspiram muito com sua arte: 4 escritoras e 11 cantoras.



1. Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria - Igbo)

Livro: Hibisco Roxo


Chimamanda é nigeriana, de etnia Igbo. Eu a conheci muitos anos atrás através do TED talk que até hoje me emociona sobre os perigos da história única, mas demorei muito para ler um livro dela até que um dia minha mãe me deu um na mão e disse que eu precisava ler, já que estava morando por aqui. De todos os livros da Chimamanda, resolvi indicar Hibisco Roxo, que tem tudo a ver com o TED que mencionei. Fala de patriarcado, de machismo, de violência doméstica, mas também retrata de maneira muito sensível uma Nigéria contemporânea que ainda enfrenta muitos desafios que ficaram como resquícios da colonização inglesa no país. Quer mais motivos para começar a ler amanhã?


2. Ayobami Adebayo (Nigéria - Yoruba)

Livro: Fique Comigo


Mais uma leitura incentivada por minha mãe (obrigada!): Ayobami Adebayo também é nigeriana, mas de etnia Yoruba e isto é refletido em sua escrita. O livro indicado é seu livro de estreia, mas já estou torcendo muito para que ela escreva mais. Fique Comigo é daqueles livros que são facilmente "devorados" em um final de semana, pois a forma como Ayobami escreve deixa a narrativa viciante e surpreendente. Mas minha indicação vai muito além do fato de ela ser uma ótima escritora: esse é um livro para quem quer entender um pouco mais sobre a estrutura poligâmica muito presente na África Ocidental e sobre relações de gênero de uma forma ao mesmo tempo intensa e leve. É um livro escrito por uma mulher, com uma protagonista mulher e muitas reflexões!


3. Yaa Gyasi (Gana - Asante)

Livro: O Caminho de Casa


Livro essencial para começar a entender as diversas consequências da colonização europeia no continente africano e os desdobramentos da escravidão transatlântica para quem ficou em Gana, para quem foi levado para as Américas para ser escravizado e para os descendentes em ambas situações. O livro de estreia de Yaa Gyasi - ganesa de etnia Asante - conta a história fictícia mas inspirada por fatos históricos de 2 mulheres Asantes e seus descendentes através de várias gerações: Efia, casada com o governador britânico que comanda o principal forte da Inglaterra em Gana (Cape Coast Castle) e Esi, sua irmã que é capturada e mantida cativa em uma masmorra nesse mesmo forte. É um livro emocionante, provocativo e inspirador.


4. Ayesha Harruna Attah (Gana)

Livro: Hundred wells of Salaga


Mais um livro imperdível escrito por uma mulher e narrado por duas personagens mulheres, com vidas muito diferentes. Eu diria que Hundred wells of Salaga (não há tradução para português, infelizmente) é um livro que complementa muito as questões abordadas pela outra escritora (Yaa Gyasi) no livro "O Caminho de Casa". O ideal, na minha opinião, é ler ambos na sequência, em qualquer ordem. Foi mais um livro que eu devorei em menos de dois dias e que aborda de forma sensível e ao mesmo tempo intensa questões relacionadas à vida de mulheres em um contexto complexo que soma patriarcado, colonização e escravidão.


5. Cina Soul (Gana - Ga)

Gênero musical: Ga Folk, Highlife e Soul.

Para estrear as indicações de cantoras escolhi uma mulher que me deixa literalmente arrepiada. Eu já gostava muito das músicas de Cina Soul, mas quando a vi cantando ao vivo no início de 2019 minha admiração por ela aumentou ainda mais - que voz maravilhosa!

De todas as músicas, escolhi esse vídeo para colocar aqui porque ele é muito mais do que um videoclipe, é um verdadeiro filme que retrata a cultura do povo Ga, etnia de Cina Soul. Esse estilo de música é tradicional dessa etnia, mas ela também canta outros estilos como soul e Highlife. Uma de minhas músicas favoritas é "Julor".



6. Simi (Nigeria - Yoruba)

Gênero musical: Soul e Afro-pop

Eu arrisco dizer que a música "Joromi", do álbum mais recente de Simi, é uma das músicas mais tocadas desde o início de 2019 nos países da África Ocidental onde o idioma colonial é o inglês (Nigéria, Gana e Libéria, principalmente). Suas músicas são geralmente em inglês pidgin e também em Yoruba, seu idioma nativo.




7. Yemi Alade (Nigéria - Yoruba-Igbo)

Gênero musical: Afro-pop


Quando falamos de música da África Ocidental geralmente as pessoas mais conhecidas em todo o continente africano são da Nigéria. São muitos artistas - e mulheres - por isso fica até difícil escolher. Eu não poderia deixar de incluir Yemi Alade nessa primeira lista não apenas por suas músicas serem hits internacionais, mas também por ser mais uma artista que aproveita seu status para tratar de temas super importantes.


Seu álbum "Mama Africa", segundo a própria Yemi Alade, foi criado para retratar as dores e as alegrias, as coisas boas e ruins, as fortalezas e os desafios da mulher africana. Ela define seu álbum como o "diário da mulher africana".


Curiosidade: Yemi participa da música "Don't jealous me" do álbum Lion King de Beyoncé. Fãs de Beyoncé e Anitta, conheçam essa mulher pelo amor da deusa!



8. Tiwa Savage (Nigeria)

Gênero musical: Afro-pop


As pessoas que são fãs de afro-pop se dividem entre as que preferem Yemi Alade e as que preferem Tiwa Savage. Tiwa também é nigeriana e também está presente no álbum de Beyoncé com a música "Keys to the kingdom". Sua músicas são cantadas em inglês, pidgin e Yorubá.




9. Ebony Reigns (Gana - Asante)

Gênero musical: Afrobeats e Dancehall


Se as cantoras nigerianas já ganharam espaço suficiente no mundo do Afro-pop, em Gana ainda há muito para ser conquistado. Ebony era uma das cantoras que estava sendo cada vez mais reconhecida quando faleceu em um trágico acidente de carro. Eu morava em Gana nessa época e lembro da comoção nacional.


Por meio de sua músicas, Ebony falava sobre temas que normalmente deixam as pessoas desconfortáveis. Cantava sobre convenções sociais e gerava polêmicas, de maneira sutil. Em Maame Hw3, ela levanta discussões sobre violência doméstica; em Sponsor, Ebony retrata uma situação bem comum em Gana quando meninas jovens aceitam se relacionar com homens bem mais velhos em troca de dinheiro, para pagarem as taxas da faculdade, por exemplo. Ebony faleceu cedo, infelizmente, mas suas músicas continuam sendo tocadas em todos os lugares por onde passo.



10. Wiyaala (Gana - Sisala)

Gênero musical: Afro-pop e Folk


Conheci Wiyaala apenas recentemente, confesso. As músicas (ainda) não são tocadas em rádios e nas principais festas em Gana. Talvez seja uma questão de tempo, talvez seja o fato de ela cantar bastante em idiomas que são pouco falados na capital do país (waala e sisaala). Mas Wiyaala canta para seu povo, ela canta para se comunicar e se expressa, usa a música como forma de ativismo contra casamento infantil e mutilação genital feminina.


O vídeo que eu escolhi para colocar aqui foi lançado no dia internacional das mulheres de 2019. À princípio eu queria . mostrar uma das músicas em sisaala, mas quando vi esse vídeo com todas essas mulheres dançando não tive como escolher outra música.



11. Fatoumata Diawara (Mali - Wassoulou)

Gênero musical: Wassoulou


Eu gosto de afro-pop e afrobeats, mas confesso que as músicas de Mali e do Senegal são as que ganharam verdadeiramente meu coração. Fatou é uma das cantoras que ouço praticamente todos os dias, mesmo sem entender uma palavra em Bambara, idioma em que canta a maioria das músicas. Seu estilo musical - Wassoulou - é tradicionalmente cantado somente por mulheres da região sul de Mali, sendo Fatou uma das cantoras mais famosas.


As músicas wassoulou usualmente também tratam de temas socialmente importantes. Algumas de minhas músicas favoritas de Fatou são "Clandestin", sobre seus conterrâneos que buscam refúgio em terras europeias; "Sowa"; sobre um problema usual que é o abandono de filhos para adoção; e "Boloko", sobre mutilação genital feminina (que a própria Fatou foi obrigada a fazer quando adolescente).



12. Oumou Sangare (Mali - Wassoulou)

Gênero musical: Wassoulou

Ativista dos direitos das mulheres e considerada embaixadora do estilo wassoulou, não será novidade se eu disser que ela também canta sobre temas sensíveis levantando críticas sociais como em Yere Faga, sobre suicídio; Wele Wele Wintou, sobre casamento infantil. e Worotan, sobre as limitações da poligamia forçada.

Entre tantas música incríveis, eu escolhi o vídeo da música "Mali Nali" por ser uma homenagem ao seu país de origem e mostrar bastante imagens de lá, bem longe do estereótipo reproduzido pela mídia convencional. Oumou também canta em Bambara.


13. Rokia Traoré (Mali - Bambara)

Gênero musical: Blues



Rokia é outra cantora que eu ouço praticamente todos os dias. Ela canta em bambara, seu idioma nativo, e em francês. Essa música é bem diferente de outras que eu gosto muito, mas é uma música linda sobre as mulheres de Mali.




14. Cesaria Evora (Cabo Verde)

Gênero musical: Morna


Cesaria Evora foi um símbolo nacional em Cabo Verde e uma das grandes responsáveis por levar a música cabo-verdiana ("morna") para o mundo.


Ela ficou conhecida como a diva dos pés descalços pois sempre cantava descalça para homenagear as mulheres da zona rural, onde cresceu. Cantava principalmente em crioulo, idioma de Cabo-verde que tem influências do português, do francês e de dialetos locais.



15. Les filles de Illighadad (Niger - Tuareg)

Gênero musical: Tuareg Music


Minha última recomendação na verdade me faz trapacear o título do artigo, pois não é uma mulher apenas, mas um grupo composto por 3 mulheres.


Ghani é conhecida por ser a primeira mulher Tuareg a tocar guitarra profissionalmente, um instrumento que era tradicionalmente exclusivo para homens em sua etnia. Apaixonada pelo instrumento e pela música tradicional, Ghani montou uma banda com sua prima e uma amiga e elas têm levado a "música do deserto do Saara" para o mundo.






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Ana Carolina Ussier

Uma mulher viajante, com sol em aquário e lua em sagitário. Tenho muitas versões: engenheira por formação, gerente de projetos por convicção e dançarina por vocação, mas acima de tudo uma grande incomodadora inconformada. Apaixonada por inclusão social e pelo universo feminino. Vivendo pela África Ocidental desde 2017, agora sem residência fixa.

 

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